Exames de sangue: os valores que eu considero além da referência

Dr. Jorge Madeiro no consultório, avaliando exames de sangue com o paciente

Exames de sangue: os valores que eu considero além da referência

“Seus exames estão todos dentro da referência.” Essa frase encerra muita consulta, e mesmo assim a pessoa continua cansada, com queda de cabelo e sem conseguir emagrecer. Dentro da referência não quer dizer que está tudo bem.

O que a referência do laboratório quer dizer

A referência do laboratório é calculada a partir de uma população. Ela mostra onde está a maioria das pessoas, e não onde o seu corpo funciona melhor. E essa maioria, hoje, inclui muita gente cansada, inflamada e com o metabolismo travado.

Por isso um valor pode estar “normal” no laudo e, mesmo assim, já explicar a queixa que trouxe a pessoa até o consultório. Normal não é sinônimo de ótimo.

Antes de abrir o exame, eu pergunto

O exame é complementar. Antes de olhar qualquer número, eu quero saber:

  • O que você come em cada refeição. Do café da manhã à janta, e o fim de semana também.
  • Como você dorme. Hora de deitar, de acordar e como você acorda.
  • Se você treina, o quê e em que horário.
  • Quanta água você bebe.

Só então eu abro o papel. Um número sem a história é só um número.

Os valores que eu considero

Estes são os critérios que eu uso no consultório. Abaixo ou acima deles, mesmo dentro da referência do laboratório, eu considero que existe algo para investigar ou ajustar.

Vitamina D: abaixo de 30 a 40 ng/mL

Participa da saúde do osso, da força do músculo e da imunidade. Muitos laboratórios consideram adequado acima de 20 ng/mL para a população saudável, e já colocam 30 como mínimo para grupos de risco. Eu busco a faixa de 30 a 40.

Ferritina: abaixo de 70 ng/mL

É o estoque de ferro do corpo. Ela cai antes de a anemia aparecer no hemograma, e o estoque baixo já pode se mostrar como cansaço e queda de cabelo. Um cuidado: a ferritina também sobe com inflamação, então ela precisa ser lida junto com os outros exames.

Vitamina B12: abaixo de 700 pg/mL

Ligada ao sistema nervoso, à formação do sangue e à disposição. A referência do laboratório começa bem mais baixo, e é comum a pessoa estar “normal” no laudo e com a queixa de cansaço que a B12 ajuda a explicar.

Vitamina C: abaixo de 1 mg/dL

Participa da imunidade, da formação de colágeno e da absorção do ferro. Quase ninguém pede, e ela conversa com a ferritina.

Ácido fólico: abaixo de 12 ng/mL

Trabalha junto com a B12 na formação do sangue. Quando os dois estão baixos, a homocisteína costuma subir.

Homocisteína: acima de 9 µmol/L

Quando ela está alta, o risco de infarto e de AVC costuma ser maior. Ela sobe quando faltam vitaminas do complexo B, então funciona também como termômetro da reposição.

Insulina de jejum: acima de 9 µUI/mL

A insulina sobe antes da glicose. O corpo produz mais insulina para manter o açúcar controlado, e por um bom tempo a glicose segue normal. É a resistência à insulina aparecendo antes do diabetes, e é por ela que muita gente trava para emagrecer.

TSH: acima de 2,5 µUI/mL

É o hormônio que comanda a tireoide. A referência do laboratório costuma ir até cerca de 4, mas tireoide “dentro da referência” nem sempre é tireoide bem, principalmente quando a pessoa tem cansaço, ganho de peso e intestino preso.

PCR: acima de 1 mg/L

É um marcador de inflamação. A obesidade costuma vir com uma inflamação silenciosa, que aparece nesse exame. E no consultório eu vejo um ciclo: inflamação, ansiedade e comida. A PCR ajuda a acompanhar esse ciclo.

Esses valores não são diagnóstico. São critérios que eu uso para decidir o que investigar e o que ajustar, sempre junto com a história e o exame físico. Ninguém deve começar a tomar vitamina ou remédio por causa de uma lista.

O que fazer com o resultado

Quando um desses valores está fora do que eu considero, a conduta depende da causa. Às vezes é alimentação, às vezes é absorção, às vezes é um remédio de uso contínuo atrapalhando. E quando existe reposição, ela é acompanhada: o exame é repetido para saber se o valor subiu e se a queixa melhorou.

O objetivo não é deixar o número bonito no papel. É a pessoa voltar a ter disposição para fazer a parte dela, que continua sendo comer bem, dormir e treinar.

Perguntas frequentes

Exame dentro da referência quer dizer que está tudo bem?

Não necessariamente. A referência do laboratório é a média da população, e um valor dentro dela pode, mesmo assim, explicar sintomas como cansaço e queda de cabelo. O exame precisa ser lido junto com a história da pessoa.

Qual o valor ideal de ferritina?

No consultório, eu considero que a ferritina abaixo de 70 ng/mL já pede atenção, mesmo dentro da referência. Ela é o estoque de ferro e cai antes de a anemia aparecer.

Insulina de jejum alta com glicose normal é problema?

Pode ser o primeiro sinal de resistência à insulina. O corpo produz mais insulina para manter a glicose normal, e esse esforço aparece no exame antes do diabetes.

Posso tomar vitamina por conta própria se o meu exame estiver baixo?

Não é o ideal. O valor baixo tem uma causa, e a reposição precisa de dose, via e acompanhamento, com exame repetido para saber se funcionou.

Com que frequência repetir esses exames?

Depende do que foi encontrado e do que está sendo tratado. Quando existe reposição, o exame é repetido para conferir se o valor subiu e se a queixa melhorou.

Quer uma leitura do seu exame junto com a sua história?

Este texto explica os critérios. A consulta olha a sua rotina, os seus exames e o seu objetivo.

Scroll to Top